Aprovado com corte no orçamento: como reorganizar sem quebrar a entrega
Aprovado, com valor menor do que o solicitado. A reação mais comum é abrir a planilha e reduzir todas as linhas na mesma proporção, para que a conta feche rápido. É essa reação que costuma quebrar o projeto inteiro.
O corte linear é a armadilha
Chamo de corte linear a decisão de tirar a mesma porcentagem de cada item do orçamento. Ele parece o mais justo e o mais neutro, porque não obriga ninguém a escolher. E ele funciona muito mal, por um motivo simples: boa parte dos itens de um projeto cultural não é divisível.
Um cachê reduzido em 30% não contrata 70% do artista. Ele não contrata ninguém, porque o artista recusa. Uma equipe de acessibilidade reduzida em 30% não entrega 70% da acessibilidade, ela entrega um intérprete de Libras que cobre metade da programação, o que na prática descumpre a contrapartida inteira. Um equipamento alugado por 30% menos não é o mesmo equipamento por menos tempo, costuma ser outro equipamento.
Aplicado a um orçamento inteiro, o corte linear produz um projeto em que nenhuma linha está confortável e várias estão inviáveis ao mesmo tempo. É a diferença entre entregar um projeto menor e entregar um projeto quebrado.
O que não pode encolher
Existe uma parte do projeto que deixou de ser sua no dia da aprovação. São os compromissos que a banca avaliou e pontuou, e que passaram a constar do que foi aprovado:
- As metas declaradas, com os números que você escreveu.
- As contrapartidas sociais, que costumam ser condição de aprovação e não gentileza.
- O plano de acessibilidade, quando o edital exigiu.
- As ações de democratização do acesso e o público declarado.
- O que você usou para pontuar em critérios específicos, como território atendido ou perfil da equipe.
Mexer nesses itens sem autorização é o que transforma um corte de orçamento em problema de prestação de contas dois anos depois. O órgão não compara o que você entregou com o que era razoável, compara com o que foi aprovado.
Onde o corte cabe
Sobra bastante espaço, e ele está quase todo em produção e escala:
- Escopo dentro da meta. Se a meta é de oito apresentações e você orçou cenografia para um palco grande, dá para manter as oito com uma solução cênica mais simples.
- Itens comprados que viram itens alugados, ou compartilhados com outro projeto.
- Estrutura de divulgação, quando não é contrapartida declarada.
- Reserva de contingência e taxas administrativas, dentro do que o edital permite.
- Fases, quando o formato permite entregar o mesmo resultado em menos etapas sem reduzir a meta.
As duas perguntas que decidem cada linha
Antes de mexer em qualquer item, responda nesta ordem:
- Esse item foi avaliado? Se ele sustenta uma meta, uma contrapartida ou um critério pontuado, ele está travado. O caminho não é cortar, é pedir alteração formal.
- Esse item é divisível? Se reduzir o valor pela metade produz metade do resultado, ele aceita corte. Se reduzir pela metade produz resultado nenhum, ele é indivisível: ou fica inteiro, ou sai inteiro do projeto.
Corte linear, projeto de 100 mil aprovado por 70 mil. Todas as vinte linhas perdem 30%. Resultado: cachês recusados, acessibilidade parcial, e nenhuma meta cumprida por inteiro.
Corte por decisão. Duas linhas indivisíveis saem inteiras do projeto, a cenografia troca de solução, a divulgação encolhe, e todas as metas seguem cumpridas. O projeto ficou menor e continua entregável.
Quando a conta não fecha de jeito nenhum
Se depois de decidir item por item o valor ainda não sustenta as metas aprovadas, existem dois caminhos formais, e nenhum deles é executar torcendo para dar certo.
O primeiro é pedir alteração do plano de trabalho, apresentando a nova proposta de metas compatível com o valor aprovado. Isso se faz antes de executar, com justificativa, e o órgão pode aceitar ou não. Executar diferente sem pedir é o que gera glosa e devolução.
O segundo é captar a diferença. Vários editais permitem contrapartida financeira ou aporte complementar de patrocínio privado, e um projeto já aprovado por uma comissão pública é um argumento comercial forte diante de uma empresa, porque o risco de seleção já passou.
O corte de hoje vira pergunta na prestação de contas depois
O EmmaPresta lê o projeto aprovado e os documentos de execução, monta o relatório no formato do órgão financiador e aponta onde estão os gaps antes que eles virem pendência.
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